quarta-feira, 1 de junho de 2011

O que é ... ontem

Ontem, por mera coincidência, revi uma pessoa que não encontrava há muito tempo. Nosso último contato aconteceu ainda nos bancos escolares, quando ela e eu tínhamos 16 anos. As lembranças daquela época foram surgindo aos poucos, meio fora de foco no princípio, mas não demorou para que trouxessem de volta algumas histórias que ficaram esquecidas em páginas do passado.


O que mais me chamou a atenção nesse encontro é que aquela pessoa conservava os mesmos traços, o mesmo sorriso despreocupado, o mesmo brilho no olhar. E, principalmente, a mesma atitude de desafio perante as dificuldades da vida - dificuldades que, naqueles tempos, davam a impressão de que seriam facilmente superáveis, quaisquer que viesse a ser. Então, parei um momento para refletir.


Ao contrário dela, eu havia mudado bastante. Tornei-me um pouco mais cética, bem mais cínica, muito mais desconfiada e, confesso, tive mais decepções do que imaginava que viria a ter. Aquela pessoa e eu, há tantos anos, tínhamos exatamente os mesmos sonhos. A maioria deles, hoje eu sei, era irrealizável por natureza. Lembro-me, por exemplo, que eu queria aprender a ler pensamentos. Queria voar por minha própria dinâmica, como se tivesse asas. E acreditava, com absoluta convicção, que seria capaz de fazer essas e muitas coisas impossíveis. Porque eu não apenas tinha o tempo a meu favor, mas tinha principalmente aquela saudável falta de medo, típica da juventude, que nos faz acreditar que o mundo em essência é simples e que os adultos vivem engajados em uma monumental campanha para torná-lo cada vez mais complicado.


Trabalhar, por exemplo. O que poderia ser mais fácil do que entrar em uma empresa, fazer novas amizades, ter grandes idéias, ser reconhecida e promovida, viajar pelo mundo inteiro e, ainda por cima, ganhar muito dinheiro? E o melhor de tudo era que, com o talento que eu acreditava ter, todas essas coisas aconteceriam em questão de dois ou três anos, no máximo. Hoje eu sei que não é bem assim, mas hoje é hoje. É por isso que é bom encontrar alguém que nos transporte de volta para o ontem, quando as palavras "sonhos" e "planos" eram sinônimos perfeitos. É em momentos assim que a gente para e faz um balanço da vida, para perceber que não perdemos oportunidades; o que perdemos foi boa parte da confiança que tínhamos em nós mesmos. E aquela pessoa estava ali, bem na minha frente, para comprovar isso.


Então, fechei o álbum de fotografias. A pessoa que eu havia encontrado após tanto tempo era eu mesma, num retrato quase esquecido. A foto me lembrou que, um dia, eu já fui alguém mais corajosa e bem mais confiante do que sou hoje. Aquela pessoa que fui enxergava o mundo como uma ampla avenida, em que as luzes de todos os faróis estavam sempre verdes. E a pessoa que eu me tornei passou a se concentrar mais nas ruas sem saída. Não deixa de ser irônico pensar que estudamos tanto e aprendemos tanta coisa apenas para, um belo dia, perceber que nossas dificuldades presentes não são o resultado do muito que conseguimos nos tornar, elas são a consequência do pouco que deixamos de ser.